“Empurro
minha filha de dois anos no carrinho de bebê: isto é cinema. Minha filha
empurra o carrinho vazio: isto é vídeo”.
A
formulação de Jean-Paul Fargier (1996), apesar de soar ultrapassada, pois o
contato entre cinema e vídeo está altamente consolidado, é interessante pela
imagem que suscita. Lembrei, a partir dessa proposição, de dois artistas, um,
próprio ao cinema e outro, ao vídeo: Humberto Mauro e Cao Guimarães.
Para
Humberto Mauro, cinema é cachoeira e para Cao Guimarães, vídeo é bolha de
sabão. Cachoeira no sentido da torrente grandiosa de acontecimentos, dos corpos
que ultrapassam o fluxo da tela, da refração da luz conforme o ângulo em que se
observa a imagem. Bolha de sabão como imagem portátil, incerta, que vaga e se
confunde com o ambiente em que circula. Seguindo essa idéia, o espectador de
cinema é conduzido e o de vídeo conduz, age sobre as imagens. No caso do vídeo,
o espectador pode manipular, trocar de canal e compartilhar as imagens.
Carrinho
de bebê, cachoeira e bolha de sabão são, nessa história, dispositivos que ativam subjetividades. A
bolha de sabão dentro da cachoeira se dissolve fácil, se multiplica e se transforma
em outra coisa. Talvez essa seja a imagem-síntese da internet.