quinta-feira, 18 de julho de 2013

Cegueira da Visão






Toda imagem existe porque olhamos para ela. As imagens suplicam olhares. Existe, porém, uma imagem que não pode ser vista: o olhar da Medusa. Sob pena de se tornar para sempre pedra.        

O cinema, arte de ver sem ser visto, tolera a cegueira da visão? 

Os cegos no cinema são videntes que olham através da imagem.  
João Batista de Andrade criou um contador de histórias em O cego que gritava luz, quando os cineastas brasileiros estavam cegos e famintos por causa do governo Collor. A moça cega de A Vila precisa atravessar a floresta cheia de monstros em busca do remédio que salvará a vida do noivo. A cegueira é sua força. Ela não vê a farsa da sociedade e abre caminho para a lucidez. Selma, de Dançando no escuro, vive na escuridão para que a próxima geração, seu filho, enxergue.
A tela Cabeça de Medusa de Caravaggio retrata a Medusa no último olhar antes do golpe fatal que lhe corta a cabeça. 
No mundo repleto de telas, os olhos estão hipertrofiados.Mas ainda fechamos nossos olhos nos sentimentos mais profundos: no beijo, no sonho e na emoção.      
                

terça-feira, 2 de julho de 2013

Oestes

Os filmes de faroeste sempre afirmaram o imaginário bélico do povo norte-americano, do país que resolve na bala seus problemas políticos, seja no  período do nazismo ou na Guerra Fria, o gênero atravessou o século XX se reinventando.    
Sergio Leone fez um faroeste maneirista. Scorsese se interessou pelo bang-bang urbano, niilista e perturbado em Taxi Driver. George Lucas  jogou o western para dentro do vídeo-game em Guerra nas Estrelas e Tarantino revê o gênero em chave pop, debochada. No entanto, o cineasta que melhor carrega hoje a mitologia do faroeste é Clint Eastwood. Ele faz a ligação ancestral entre John Wayne e a América multicultural.
Faroeste sem cavalo e sem índio. O herói cansado de guerra, deslocado em um país de imigrantes e mais preocupado em lustrar o seu antigo carro e beber Budweiser na varanda. Em Grand Torino (2008), o personagem de Eastwood - veterano do exército, moralista, racista - faz justiça com as próprias mãos para proteger, ora veja, a indefesa família chinesa. O cowboy atual não polariza mais com os selvagens. Nessa narrativa da nação americana, os outros são eles mesmos.