sexta-feira, 30 de agosto de 2013

História social do zoom








Diz a lenda, que com a primeira câmera dos irmãos Lumière, no final do século XIX, não era possível enquadrar precisamente a imagem. Não existia visor no equipamento. O plano era enquadrado na base da tentativa e do erro. Era uma espécie de ótica cega.
As lentes de cinema foram aperfeiçoadas até a tecnologia do zoom, na década de 1950, criar a variação focal das objetivas. A lente zoom possibilita a imersão do olhar na cena.  Sem sair do lugar, o protótipo do olho multiplica a visão, simula a aproximação e invade privacidades.
Não existe nada parecido com esse olhar no mundo biológico. Por que será que o cineasta mais esfuziante do zoom foi Stanley Kubrick?Porque o zoom é um olhar futurista, perturbador e, acima de tudo, o olhar da ‘mente’ da máquina. O zoom é a técnica da inteligência artificial   
O zoom é uma característica da economia da televisão. No estúdio de TV, o recurso agiliza a produção de imagens e sons em série, pois não é preciso trocar as lentes a cada nova posição da câmera no cenário. No vídeo experimental, o zoom é usado para quebrar com o naturalismo da imagem. Em câmeras digitais, o zoom, levado as últimas conseqüências, explode em galáxia de pixels, em desfiguração generalizada das formas.
As novas gerações, cada vez mais instrumentalizadas na linguagem audiovisual, vêem o mundo pelo filtro do zoom. No filme Crônica da Inocência (2000) de Raoul Ruiz, a criança enquadra sua vida no vai-e-vem das lentes da câmera.         

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Geometria

A perspectiva renascentista coloca o espectador como fonte do olhar. A tela seria a janela que se abre à visão do mundo. Tudo nos leva ao centro da imagem.
Eisenstein foi o cineasta que desestabilizou essa noção clássica ao buscar, na pintura e na poesia japonesa, as linhas e formas sobrepostas, descontínuas. Em Eisenstein não só a montagem entre as imagens é conflitante, como a montagem interna ao quadro subverte a lógica naturalista. A “geometria da forma”, proposta pelo cineasta, consiste em desarmonizar a composição dos objetos em volumes, escalas, tonalidades e luzes. A geometria pelo avesso.
A perspectiva é, de todo modo, um espelho, ou seja, uma tela que se reconhece no mundo tridimensional. O quadro audiovisual proposto por Eisenstein é, por outro lado, um espelho quebrado, estilhaçado. Braudy (2008) escreveu sobre a identificação do cinema com a realidade: “um espelho infinito não seria mais um espelho”.
Quem criou o espelho infinito foi justamente um geometricista por excelência, o pintor Escher. Ele criou a aparição e o assombro de dois espelhos colocados frente à frente.