O escritor Italo Calvino diz que a ficção é o lugar onde
“chove dentro”, ou seja, enquanto que na realidade faz sol, no mundo
imaginário, dentro do filme, se faz
chuva.
A chuva no cinema é um artifício dramático. Quando algo vai
mal, chove. A chuva também representa o rito de passagem, de mudança dentro dos
personagens ou de transição do tempo. Lembro da chuva insistente e dark em Blade Ranner, da chuva de
sapos em Magnólia e da chuva ácida e
corrosiva nos filmes de ficção científica nas madrugadas da TV.
O que chama a atenção, hoje, em Cantando na Chuva (1952), é a artificialidade de toda situação:
chove muito, dentro do estúdio, e ainda, se canta e dança.
Na passagem do cinema clássico para
o moderno, Hollywood precisava sapatear nas poças d´água, sorrindo. O cinema,
no último suspiro circense, faz seu malabarismo constrangido antes do surgimento
dos cinemas novos. Não é à toa que o
enredo de Cantando na Chuva seja sobre outro rito de passagem: o cinema
mudo para o falado.
Fellini, o palhaço moderno, tratou
de cinema e chuva de forma bela em A Entrevista (1987). No fundo, o
filme trata da passagem cultural do cinema para a televisão como meio de massa. Em A Entrevista, não existe filme
dentro do filme por causa da chuva.
Mas a chuva produz, afinal, outro filme,
ainda mais forte.
