sábado, 19 de julho de 2014

Livros intermináveis


Os livros sobre cinema do filósofo Deleuze (Imagem-Movimento e Imagem-Tempo) são livros intermináveis. Todo livro deve não ter fim. Deve anunciar, na palavra final, a travessia, como em Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa.      
A cada nova investida, o leitor tem a sensação de descoberta. As formulações de Deleuze parecem que se movimentam, tem vida própria na página. É o devir do entendimento, da imagem, da vida, que em algum momento fará sentido.                
Quando a crítica rasteira e deslumbrada com a eletrônica anunciava o fim do cinema, na década de 1980, Deleuze se permitiu entrar na própria consciência do cinema e analisar, sobretudo, como os personagens percebem o mundo. O nosso e o deles. Tudo isso, atualizando outro filósofo, Bergson, contemporâneo da idéia de cinema.          
Fico imaginando o filósofo datilografando essas centenas de páginas na máquina de escrever e vendo filmes no movimento dos conceitos, enquanto tento decifrar meu livro comprado no sebo.          


 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Pregnância



O “instante pregnante” é um termo criado pelo crítico de arte Lessing em 1766, para designar a pintura “encenada”, artificial na cena representada. Esse instante ou momento é a essência do acontecimento ficcional, o clímax da cena. É a pintura teatral, como nos quadros mais dramáticos de Goya ou Caravaggio.  
O fotógrafo Cartier Bresson, a pesar de tratar a sua inseparável Leica como uma câmera de cinema portátil, pois não tirava o olho do visor, perseguiu o instante decisivo, mágico, na composição do enquadramento. A fotografia do homem parado no ar, pulando a poça de água, revela a dilatação dos quadros de Bresson.

Existe uma linha do documentário contemporâneo que busca a precisão nos enquadramentos, que deixa de lado a fluidez e a improvisação inerentes à realidade. O cineasta monta, assim, a encenação junto com os personagens, de modo bem próximo da linguagem ficcional. No documentário Girimunho (2011) de Helvécio Marins e Clarissa Campolina, os enquadramentos são milimetricamente decupados. A câmera busca a pregnância da ação, entre a pintura e a narrativa.                         


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Voôs


Encurtar as distâncias parece ser a vocação da modernidade, tanto na tecnologia como na arte.
Viajar de avião, por exemplo, nessa cápsula hermética do tempo é, supostamente, apagar o território.
Não é o tempo que ficou menor. É que, cada vez mais espaço e mais imagens, passam entre o mesmo tempo.
O cinema, máquina de fazer distâncias, promove a gagueira dos planos aéreos, até o limite do clichê. O cineasta pode brincar de aviador, Deus ou alpinista. As lentes da National Geografic observam  a fauna  em teleobjetiva para não serem engolidas pelas feras.      
Olhar de longe é a interação das pinturas de Saurat. As telas vistas de perto são reduzidas a pontos desconexos e tateantes. Algumas obras de Vik Muniz só fazem sentido vistas do alto como no desenho do trator no campo de terra ou na nuvem rabiscada pelo avião no céu, que alternam a noção entre latitude e longitude.
O artista Cassio Vasconcellos atingiu o formalismo aéreo em série de fotografias que revelam um mundo de brinquedo, com peças mal encaixadas, numa espécie de dadaísmo no olhar de gigante.