Diz
a lenda, que com a primeira câmera dos irmãos Lumière, no final do século XIX, não
era possível enquadrar precisamente a imagem. Não existia visor no equipamento.
O plano era enquadrado na base da tentativa e do erro. Era uma espécie de ótica
cega.
As
lentes de cinema foram aperfeiçoadas até a tecnologia do zoom, na década de 1950, criar a variação focal das objetivas. A
lente zoom possibilita a imersão do
olhar na cena. Sem sair do lugar, o protótipo
do olho multiplica a visão, simula a aproximação e invade privacidades.
Não
existe nada parecido com esse olhar no mundo biológico. Por que será que o
cineasta mais esfuziante do zoom foi
Stanley Kubrick?Porque o zoom é um
olhar futurista, perturbador e, acima de tudo, o olhar da ‘mente’ da máquina. O zoom é a técnica da inteligência artificial
O
zoom é uma característica da economia
da televisão. No estúdio de TV, o recurso agiliza
a produção de imagens e sons em série, pois não é preciso trocar as lentes a
cada nova posição da câmera no cenário. No vídeo experimental, o zoom é usado para quebrar com o naturalismo
da imagem. Em câmeras digitais, o zoom, levado
as últimas conseqüências, explode em galáxia de pixels, em desfiguração generalizada
das formas.
As
novas gerações, cada vez mais instrumentalizadas na linguagem audiovisual, vêem
o mundo pelo filtro do zoom. No filme
Crônica da Inocência (2000) de Raoul
Ruiz, a criança enquadra sua vida no vai-e-vem das lentes da câmera.

