Existem
duas cineastas brasileiras que tratam do tempo de forma muito interessante:
Ana Muylaerte e Eliane Caffé. Uma, vê a ruína na cidade, nos bairros de classe
média. A outra, a ruína na paisagem rural, no Brasil profundo, pré-industrial.
Ruínas no
sentido imaginado por Walter Benjamin, da imagem ao mesmo tempo do presente e
do passado, do arcaico e do moderno.
Anna
Muylaert trabalha com personagens anacrônicos, deslocados do tempo presente. Personagens
assentados nas coisas do passado, com o olhar no retrovisor. São, principalmente,
figuras fora do mundo corporativo. Durval (Durval
Discos, 2001) insiste em vender vinil na era do digital. Baby (É Proibido Fumar, 2009) dá aulas de
violão em casa, cultua o Chico Buarque e teima em fumar, hábito em desuso.
Já
Eliane Caffé trata do tempo mítico. No filme Kenoma (1998), o artesão sonha construir a máquina de moto-contínuo.
Em Narradores de Javé (2003) o único personagem
que sabe escrever no povoado precisa registrar a história de Javé, que será
inundada para a construção de uma hidroelétrica.
Pedra
sobre pedra: no final de tudo a casa de Durval é demolida e a cidade de Javé é
inundada. Daí surge outra paisagem.

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