quinta-feira, 15 de setembro de 2016
O Som da Memória
No filme Aquarius (2016), Cleber Mendonça Filho retoma temas já explorados em O Som ao Redor (2012), como, por exemplo, a permanência, sutil e gritante, de elementos de escravidão na cultura brasileira.
Esses temas, sensíveis sobre o Brasil, na visão do diretor, aparecem, é bom frisar, de forma múltipla e muito sofisticada.
Os dois filmes - em continuidade e desvios - iniciam com imagens de arquivo, ou seja, paradas no tempo, mas são, no fundo, registros hipotéticos e ilusórios da memória nacional.
O diretor, espertamente, a partir das imagens estáticas, põe o discurso dos filmes em movimento, ao provocar certas feridas do passado que ainda atuam na sociedade.
Dentre tantos temas, convergentes e divergentes, explorados nos filmes do cineasta, destaco a questão da memória, ou melhor, uma "memória nacional", persistente e incontrolável, tanto nas relações institucionalizadas, como, e, principalmente, nas relações mais cotidianas.
No filme Aquarius, a memória se forma e perpassa o tempo presente, principalmente, através da música popular brasileira. Algo bem brasileiro, de olho e pele. Que emociona o olhar e o coração, mas que é velado (como certos contratos sociais), estruturalmente invisíveis, e, muitas vezes, compartilhados e dissolvido em todas as classes.
A personagem de Clara, que tem a cara da miscigenação brasileira, se parece bastante com uma índia guerreira, meio mulata, meio Macunaíma, meio hippie urbana.
Clara coleciona discos de vinil e se posiciona na resistência do tempo capitalista, quase sempre aterrador do velho e do obsoleto.
Clara vive num aquário do tempo, em uma Era (de Aquarius?) em ruínas, isto é, no edifício que ninguém quer mais morar, que, para a lógica (da elite e do mercado) não existe mais.
O diretor utiliza, especialmente, alguns recurso estéticos, que me chamaram a atenção, e que, acho, são formas de visões dessa memória tão intricada de tempos da cultura brasileira. Como na cena em que Clara reflete: "eu sou velha e criança, ao mesmo tempo". Somos, no mesmo tempo, novos e velhos.
A utilização, persistente, do zoom, produz, em termos de linguagem, um olhar cínico do diretor, o olhar que oscila, na duplicidade, entre intimidade e distância sobre a realidade.
O diretor escrutina a cena e, na mesma medida, se mantém afastado da realidade, como na cena da empregada que fuma na área de serviço do apartamento de classe média. Ela está dentro ou fora do círculo social?
Seria - esse olhar do diretor - uma reserva da classe média ou dominante?Ou uma posição, bem consciente, dos meios (no caso, o cinema) de produção em sociedade?
Outro elemento estético que representa bem essa memória nacional é a utilização ótica da dupla exposição, ou seja, dois espaços e tempos que estão, simultaneamente, enquadrados e focados na cena, que coexistem, que se confrontam em imagem.
Para um cineasta político, como Cleber Mendonça, a dialética das forças sociais (e imagéticas) é uma questão importante.
Clara precisa, enfim, sair do passado ancestral (do desfoque e da incerteza de classe) para agir no presente.

