quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Chuvisco na Tela




O escritor Italo Calvino diz que a ficção é o lugar onde “chove dentro”, ou seja, enquanto que na realidade faz sol, no mundo imaginário,  dentro do filme, se faz chuva.
A chuva no cinema é um artifício dramático. Quando algo vai mal, chove. A chuva também representa o rito de passagem, de mudança dentro dos personagens ou de transição do tempo. Lembro da chuva insistente e dark em Blade Ranner, da chuva de sapos em Magnólia e da chuva ácida e corrosiva nos filmes de ficção científica nas madrugadas da TV.          
O que chama a atenção, hoje, em Cantando na Chuva (1952), é a artificialidade de toda situação: chove muito, dentro do estúdio, e ainda, se canta e dança.
Na passagem do cinema clássico para o moderno, Hollywood precisava sapatear nas poças d´água, sorrindo. O cinema, no último suspiro circense, faz seu malabarismo constrangido antes do surgimento dos cinemas novos.  Não é à toa que o enredo de Cantando na Chuva seja sobre outro rito de passagem: o cinema mudo para o falado.
Fellini, o palhaço moderno, tratou de cinema e chuva de forma bela em A Entrevista (1987). No fundo, o filme trata da passagem cultural do cinema para a televisão como meio de massa. Em A Entrevista, não existe filme dentro do filme por causa da chuva. 
Mas a chuva produz, afinal, outro filme, ainda mais forte.   
                         



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