sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Florestas


“Quando você gosta de um filme por vinte anos, ele é como uma árvore que cresce independente dentro de você”. Esta bela imagem de Kiarostami me fez pensar nos filmes que levamos com a gente, pela vida a fora.       
Reencontrar o filme amado é encontrar a si mesmo, modificado. E o filme, na mesma dimensão, diferente. O filme que nos acompanha é mais invisível que visível. Não preciso revê-lo, pois suas imagens me assombram quando menos espero, como vento repentino que desperta as folhas das  árvores.     
A criação é algo como encontrar essas imagens atemporais, que estavam escondidas, que crescem sem que se perceba e, aí sim, tocar a sua presença, diante dos olhos, como aura, no sentido benjaminiano.  
Nunca se esquece da sessão de cinema que marcou a nossa história. Do lugar, do cheiro, da companhia. Do filme, resta a memória, como árvore solitária na paisagem de Kiarostami.           


domingo, 19 de janeiro de 2014

Alfabeto

Para Kulechov, o precursor da montagem no cinema, o plano era  letra, signo na frase da imagem em movimento. Literatura da imagem.
No cinema primitivo, um “comentador” era responsável por explicar à platéia, fascinada e analfabeta, o que acontecia na sala de cinema. Nos primórdios, Meliès conduzia a ação, didaticamente, olhando para o espectador, para que não restasse dúvida sobre a mágica do espetáculo. Afinal de contas, os truques devem mostrar e esconder. O primeiro cinema se pautou sobre essa ideia: surpreender e, ao mesmo tempo, explicar seus procedimentos, suas trapaças.  
Anos mais tarde, ainda no cinema mudo, as legendas cumprem a função de intervir na imagem. Chaplin coexiste com a onomatopéia do seu gesto. Quando o cinema se reinventa, na segunda metade do século XX, as letras retornam como tipos móveis. Godard, Bresson, Antonioni e Kurosawa escrevem junto com a imagem.  
Hoje, a vídeo-arte é mais texto que imagem, também, e por causa de Peter Grennaway, que escreveu no corpo da imagem e na pele da palavra. 
Kulechov, via twitter, escreve: que fim levou a imagem?