sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Memória

O documentarista Eduardo Coutinho não estava preocupado, de forma nenhuma, com o fato, com a data do acontecimento, com o tempo histórico. O seu tempo era a invenção do presente e a transformação do passado. A memória era a sua matéria de investigação.   
Em Santo Forte (1999), a fé é a presença vaga, imprecisa, da qual, mais do que tentamos nomear, não se consegue alcançar. O morro esperando o ano novo, a possibilidade infinita em Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002) não é só um lugar concreto, mas um espaço em que coexistem os tempos pessoais, subjetivos. Em As Canções (2011) toca-se a memória afetiva via imagens mentais da música popular brasileira.     
No clássico Cabra Marcado para Morrer (1984) a ditadura militar deixa de ser um índice histórico para durar na memória dos personagens, até ultrapassar a própria realização física do filme. Em O fio da Memória (1991), filme chave do cineasta, a escravidão está na memória da pele dos negros, até hoje.  
Eduardo Coutinho foi, na invisibilidade de autor, o cineasta brasileiro que melhor tratou da ficção da memória quando todos acreditavam que ele falava a verdade. 

      



   

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Impressão digital



A imagem digital é numérica, gerada em banco de dados de informação. Os números se transformam, assim, em imagens. É uma imagem que se calcula. Mas, no fundo, toda imagem é calculada, seja na geometria da moldura, do enquadramento ou do escâner.  
Calcular, na etimologia da palavra, é contar pedras. Os antigos calculavam, na palma da mão, pedras, ou seja, imagens concretas, para alcançar números, abstrações. Hoje, o computador faz as contas e gera a imagem. Na visão de Flusser (2008), o computador “imagina” a imagem, o conceito da imagem.           
A imagem háptica, isto é, a imagem que, além da visão, proporciona o sentido tátil, do toque, parece ser a imagem do presente. Todo mundo seleciona, abre, arrasta e exclui as imagens com o dedo na tela do celular. E se estivermos somente empilhando e selecionando pedras acreditando que estamos “criando” imagens?  

A impressão digital, afinal, está na palma da mão. O pintor Pollock intuiu isso ao substituir o cálculo pela exata sensação da tela.