O
documentarista Eduardo Coutinho não estava preocupado, de forma nenhuma, com o
fato, com a data do acontecimento, com o tempo histórico. O seu tempo era a
invenção do presente e a transformação do passado. A memória era a sua matéria
de investigação.
Em
Santo Forte (1999), a fé é a presença
vaga, imprecisa, da qual, mais do que tentamos nomear, não se consegue alcançar.
O morro esperando o ano novo, a possibilidade infinita em Babilônia 2000 (2001) e Edifício
Master (2002) não é só um lugar concreto, mas um espaço em que coexistem os tempos
pessoais, subjetivos. Em As Canções
(2011) toca-se a memória afetiva via imagens mentais da música popular
brasileira.
No
clássico Cabra Marcado para Morrer
(1984) a ditadura militar deixa de ser um índice histórico para durar na memória
dos personagens, até ultrapassar a própria realização física do filme. Em O fio da Memória (1991), filme chave do
cineasta, a escravidão está na memória da pele dos negros, até hoje.
Eduardo
Coutinho foi, na invisibilidade de autor, o cineasta brasileiro que melhor tratou
da ficção da memória quando todos acreditavam que ele falava a verdade.

