segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ontologia do filme ruim


A classificação, sempre subjetiva, que aparta o filme bom do filme ruim, só faz sentido em antologias, enciclopédias e reuniões solenes de câmara. Numa cultura dominante, pautada por listas de mais vendidos e mais populares, o filme ruim passa, curiosamente, a ser cultuado. Alguns “bons” cineastas se valem desse culto, como Tarantino e Sganzerla, para realizarem filmes cult.     
O último refúgio do filme infame é o trash-movie, que esgarça, conscientemente, o limiar entre o bom e o ruim. O filme ruim nos livra, socialmente, da seriedade do cotidiano, assume o pastiche da nossa existência e, acima de tudo, nos mostra como somos imperfeitos. Corajoso seria o crítico que põe a linguagem em crise, que funda a ontologia do filme ruidoso.
O cineasta Leos Carax provocou o filme ruim ao extremo com Holy Motors (2012), ao misturar o “non-sense” com a duvidosa representação nossa de cada dia. O seu personagem possui a heroica missão diária de avacalhar o próprio filme e, por extensão, a vida dos cultuadores de cinema.             

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