terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ruínas




Existem duas cineastas brasileiras que tratam do tempo de forma muito interessante: Ana Muylaerte e Eliane Caffé. Uma, vê a ruína na cidade, nos bairros de classe média. A outra, a ruína na paisagem rural, no Brasil profundo, pré-industrial.  
Ruínas no sentido imaginado por Walter Benjamin, da imagem ao mesmo tempo do presente e do passado, do arcaico e do moderno.            
Anna Muylaert trabalha com personagens anacrônicos, deslocados do tempo presente. Personagens assentados nas coisas do passado, com o olhar no retrovisor. São, principalmente, figuras fora do mundo corporativo. Durval (Durval Discos, 2001) insiste em vender vinil na era do digital. Baby (É Proibido Fumar, 2009) dá aulas de violão em casa, cultua o Chico Buarque e teima em fumar, hábito em desuso.  
Já Eliane Caffé trata do tempo mítico. No filme Kenoma (1998), o artesão sonha construir a máquina de moto-contínuo. Em Narradores de Javé (2003) o único personagem que sabe escrever no povoado precisa registrar a história de Javé, que será inundada para a construção de uma hidroelétrica. 

Pedra sobre pedra: no final de tudo a casa de Durval é demolida e a cidade de Javé é inundada. Daí surge outra paisagem.    


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