quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Origami



Ozu é o cineasta dos interiores. Da multiplicação dos interiores.
Nas casas japonesas, as sombras, vindas de fora, projetam novas formas, outros eclipses de tempo no ambiente de dentro. São várias camadas e painéis que se abrem, uns sobre os outros. Como um origami de papel com diferentes faces.
A casa ocidental e capitalista tem o sentido de propriedade, de fechamento. As paredes servem para separar, distinguir pessoas e funções. 
Por que será que o cinema de ação americano tem obsessão por devastar tantas edificações?           
Em Era uma vez em Tóquio (1963), Ozu, com extrema delicadeza, nos mostra como o quadro no cinema deve se abrir à transcendência da janela.

    


domingo, 3 de agosto de 2014

Casa na árvore



Os filmes de Wes Anderson são maravilhosamente estranhos.
Fábulas muito singulares, que misturam estética retrô, histórias em quadrinhos e literatura panorâmica. Nas fábulas tradicionais os animais possuem a linguagem, agem como humanos. Na fábula pop do cineasta os humanos são animais dóceis, caricatos e um tanto lesados, que se encontram no processo de perda e mutação da linguagem. 
A família, núcleo formador da linguagem, é o tema recorrente de Wes Anderson. Talvez seja por isso que o elenco dos filmes sempre é grande e se repete. As crianças de Moonrise Kingdon (2012) fogem de casa para viverem acampadas na montanha, cada membro da família de Os excêntricos Teneubaums (2001) vive no seu universo particular, em Viagem a Darjelling (2007) os três irmãos tentam uma reconciliação buscando a mãe na Índia, no filme Grande Hotel Budapeste (2014) o filho cuida do hotel decadente após a morte do pai adotivo. 
Aliás, as famílias pouco convencionais são o tema preferido do atual cinema independente norte-americano.    
Outro aspecto interessante na obra do cineasta é construção da decupagem, marcada por travelling lateral, zoom e tilt no mesmo plano. Algo como um plano-sequência escalonado, em que a câmera faz o movimento de varredura topográfica no cenário, em diferentes níveis de enquadramentos e profundidade. 
Essa construção lembra ainda um cubo mágico que gira em diferentes combinações de quadros.