Ler o roteiro de Limite (1931),de Mário Peixoto, é ver um
filme impossível. Estruturado em “shots”, tem frases como “o pianista senta e
arruma as músicas”, “sobre o tempo que mudou qualquer coisa” ou “o mar sobre o
último ritmo que se fotografar”.
É uma obra partida. Único e mítico filme de um cineasta com
muitos roteiros na cabeça. O grande legado de Peixoto talvez tenha sido o de produzir
imagens imaginadas, invisíveis. Imagens de exílio.
Orson Wells assistiu a uma sessão do filme Limite em 1942, arranjada por Vinicius
de Moraes. Wells, o cineasta prodígio que sacudiu a indústria de Hollywwood, estava filmando no
Brasil o seu projeto nunca terminado. Por sinal, o projeto natimorto de Wells
no país serviu de metáfora da impossibilidade de se fazer cinema no Brasil na imaginação
de Rogério Sganzerla.
Walter Salles, que tratou de naufrágios em terras
estrangeiras, visitou Mario Peixoto no final da vida. Mario Peixoto perguntou ao
jovem cineasta o que ele via no relógio pregado na parede. Salles, ingênuo,
falou: “são quatro e quinze da tarde”. Peixoto o corrigiu, quando o ponteiro se
movimenta nos diz: “um a menos, um a menos”.
Naquele exato segundo o mar se encontrou com a terra.

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