segunda-feira, 28 de abril de 2014

Ontologia do filme ruim


A classificação, sempre subjetiva, que aparta o filme bom do filme ruim, só faz sentido em antologias, enciclopédias e reuniões solenes de câmara. Numa cultura dominante, pautada por listas de mais vendidos e mais populares, o filme ruim passa, curiosamente, a ser cultuado. Alguns “bons” cineastas se valem desse culto, como Tarantino e Sganzerla, para realizarem filmes cult.     
O último refúgio do filme infame é o trash-movie, que esgarça, conscientemente, o limiar entre o bom e o ruim. O filme ruim nos livra, socialmente, da seriedade do cotidiano, assume o pastiche da nossa existência e, acima de tudo, nos mostra como somos imperfeitos. Corajoso seria o crítico que põe a linguagem em crise, que funda a ontologia do filme ruidoso.
O cineasta Leos Carax provocou o filme ruim ao extremo com Holy Motors (2012), ao misturar o “non-sense” com a duvidosa representação nossa de cada dia. O seu personagem possui a heroica missão diária de avacalhar o próprio filme e, por extensão, a vida dos cultuadores de cinema.             

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Lanterninha


O ambiente em que eram exibidos os primeiros filmes, no final do século XIX, era pecaminoso e selvagem. Não havia, ainda, as salas de cinema como as conhecemos hoje: assépticas, aveludadas, cheirando a pipoca e refrigerante e bem organizadas. Os filmes, exibidos aos pedaços e aleatoriamente, passavam em cabarés, circos e feiras. Era um legítimo ritual das massas.
As salas de cinema e a cobrança de ingresso só surgiram no final da década de 1910, com a profissionalização do meio, com a produção dos primeiros longas-metragens e com o interesse da burguesia por essas exibições. O nome pomposo de 'sétima arte' vem desse contexto.   
A figura folclórica do lanterninha nas salas de cinema é sintomática desse período de higienização das exibições de cinema. No escurinho do cinema, o lanterninha fiscalizava, ainda que de forma lúdica, se o público estava se comportando “civilizadamente”.  Em Cinema Paradiso (1988) de Giuseppe Tornatore, a figura do lanterninha, já extinta, aparece muito bem.
O poeta Carlos Drummond de Andrade (1928) escreveu sobre o fim das coisas do cinema: “a espera na sala de espera, a divina orquestra, mesmo não divina, as impossíveis sonhadas bolinações, sublime agora que para sempre submerge em funeral de sombras”.   



domingo, 6 de abril de 2014

Portais



Como entramos e saímos das imagens?
A imersão na imagem não é exclusividade das novas mídias e da simulação virtual. Quem nunca se perdeu nos labirintos bidimensionais do Escher ou nos panoramas interativos do século XIX?O modo como acessamos as imagens é cultural e técnico. Dar um passo, abrir a cortina, virar a página, apagar a luz, apertar o botão são formas de “entrar” no mundo da ficção. 
O menino assustado do quadro Escapando da crítica (1874) de Pere Borrell del Caso, se refugia no mundo da ficção ou sai da moldura para se perder na realidade dos homens de carne e osso?
O curioso, nesse quadro, é que, quem tenta escapar da crítica não é o autor do quadro - o nome próprio susceptível à exterioridade - mas o personagem de dentro da pintura, que ultrapassa o portal simbólico que divide real e ficção.    

É por isso que, as “esculturas vivas” de Ron Mueck, nos assustam tanto: elas vivem entre nós, sem qualquer fronteira aparente entre a realidade e o imaginário. Saber abandonar essas imagens, tão semelhantes e que nos olham profundamente, é nos tornar mais humanos.